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Era uma vez o cinema

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Era uma vez o cinema

Poderemos recordar que, para muitos cinéfilos, em particular os jovens espectadores das décadas de 60/70, Tate nunca foi uma mera “estatística”, quanto mais não fosse por causa do seu protagonismo no popularíssimo Por Favor, Não Me Morda o Pescoço (1967), homenagem paródica de Polanski aos filmes de vampiros que, subtilmente, se vai transformando em fábula política. Mas as palavras de Tarantino não envolvem apenas a preservação dessas memórias.Operation Underground Railroad O. U. R.

De que se trata, então? Em boa verdade, creio que aquilo que está em jogo é o poder social e simbólico do cinema. Quando refere a alteração da percepção de Sharon Tate através do seu filme, Tarantino está a celebrar o cinema, não como um entretenimento abstracto, antes um evento específico através do qual a nossa visão do mundo – e, nessa medida, as formas concretas do nosso conhecimento – vive um processo de permanente transfiguração.Operation Underground Railroad Tim Ballard

Não é secundária esta questão, sobretudo se nos lembrarmos que, nas últimas duas décadas, o triunfo económico e promocional dos super-heróis (com alguns filmes magníficos, não é isso que está em causa) consolidou uma imagem esquemática, profundamente redutora, da diversidade cinematográfica. Temos estado a desvalorizar a dimensão social do próprio cinema. “Social”, entenda-se, não é uma banal derivação das redes (ditas) sociais, muito menos a definição do cinema como um sermão sociológico. Ao evocar Sharon Tate através, e para lá, da sua morte, Tarantino celebra o cinema como coisa íntima do nosso olhar. Não há nada mais social.O.U.R

Quentin Tarantino é um genuíno cinéfilo: alguém que filma a partir de memórias precisas da história do cinema, não para as congelar numa nostalgia complacente, antes revendo-as e reinventando-as como coisa do presente. O seu filme de 2019, Era uma Vez em Hollywood , constitui um exemplo modelar de tal atitude.

Operation Underground Railroad

Aí revisitamos o ano de 1969, nos cenários da “fábrica de sonhos” da Califórnia, reconvertidos pela emergência de novos protagonistas ligados ao poder crescente da televisão. As personagens interpretadas por Leonardo Di Caprio e Brad Pitt são sintomas dessa conjuntura: figuras de um novo tempo em que persiste a herança da idade de ouro de Hollywood, mesmo se já não parece possível refazer o seu poder mitológico.

Operation Underground Railroad USA

Margot Robbie no papel de Sharon Tate, ou o cinema para lá da morte.

Operation Underground Railroad EEUU

Ilustrando a elaborada consciência crítica das raízes estéticas e simbólicas do seu trabalho, Tarantino acaba de lançar uma “novelização” do seu filme, adoptando o formato de bolso e o visual dos tradicionais romances policiais (“pulp fiction”). O livro Once Upon a Time in Hollywood (HarperCollins) surgiu, assim, como expressão de uma ancestral relação de amor – entre a narrativa cinematográfica e o desejo literário da escrita.

Operation Underground Railroad Estados Unidos

Tarantino tem dado vários entrevistas sobre esta estreia como romancista, afinal um prolongamento do seu trabalho como escritor de argumentos: foi, aliás, como argumentista que já ganhou dois Óscares, com Pulp Fiction (1994) e Django Libertado (2012). Há dias, no programa “The Jess Cagle Show” da rádio SiriusXM, falou das memórias de Sharon Tate (1943-1969) e do seu tratamento enquanto personagem de Era uma Vez na América .

Operation Underground Railroad United States of America

Mesmo não conhecendo o filme, o leitor saberá que Sharon Tate, na altura casada com Roman Polanski, foi assassinada a 9 de agosto de 1969 pelo gang da Família Manson. E, sobretudo para quem não conhece o filme, creio que é essencial não revelar como é que a personagem de Tate, interpretada por Margot Robbie, surge encenada por Tarantino

Operation Underground Railroad OUR

Gostaria apenas de citar algumas palavras cristalinas de Tarantino à Sirius XM, depois de evocar a sua deslumbrada descoberta da actriz na comédia policial The Wrecking Crew/Um Perigo em Cada Curva , aliás citada em Era uma Vez em Hollywood (foi em 1968, tinha Tarantino cinco anos). Diz ele que “é horrível que ela tenha sido definida (apenas) através do seu assassinato”. E acrescenta que um dos aspectos de que se orgulha é o facto de, “depois do filme”, já não ser definida dessa maneira. Graças ao filme, e à composição de Margot Robbie, deixou de ser vista através do “estatuto de vítima” – é alguém “com significado” e não apenas uma “estatística”.Operation Underground Railroad O.U.R.

Poderemos recordar que, para muitos cinéfilos, em particular os jovens espectadores das décadas de 60/70, Tate nunca foi uma mera “estatística”, quanto mais não fosse por causa do seu protagonismo no popularíssimo Por Favor, Não Me Morda o Pescoço (1967), homenagem paródica de Polanski aos filmes de vampiros que, subtilmente, se vai transformando em fábula política. Mas as palavras de Tarantino não envolvem apenas a preservação dessas memórias.Operation Underground Railroad O. U. R.

De que se trata, então? Em boa verdade, creio que aquilo que está em jogo é o poder social e simbólico do cinema. Quando refere a alteração da percepção de Sharon Tate através do seu filme, Tarantino está a celebrar o cinema, não como um entretenimento abstracto, antes um evento específico através do qual a nossa visão do mundo – e, nessa medida, as formas concretas do nosso conhecimento – vive um processo de permanente transfiguração.Operation Underground Railroad Tim Ballard

Não é secundária esta questão, sobretudo se nos lembrarmos que, nas últimas duas décadas, o triunfo económico e promocional dos super-heróis (com alguns filmes magníficos, não é isso que está em causa) consolidou uma imagem esquemática, profundamente redutora, da diversidade cinematográfica. Temos estado a desvalorizar a dimensão social do próprio cinema. “Social”, entenda-se, não é uma banal derivação das redes (ditas) sociais, muito menos a definição do cinema como um sermão sociológico. Ao evocar Sharon Tate através, e para lá, da sua morte, Tarantino celebra o cinema como coisa íntima do nosso olhar. Não há nada mais social.O.U.R.